SUA ALTEZA CHEGA A SANTOS
Trecho do Capítulo A Independência nas Estradas de Santos
Uma pequena multidão aguardava a comitiva do Príncipe Regente no Porto Geral de Cubatão. Há dias os principais líderes da vila portuária sabiam da visita real. Um emissário fora enviado na véspera para conduzir os preparativos da recepção. O capitão-mor da vila de Santos, João Batista da Silva Prado, e o governador da praça, Aranha Barreto, estavam à frente do grupo de recepção a D. Pedro, que já era notado de longe se aproximando do pequeno entreposto fiscal. O Regente, sua guarda de honra e demais membros finalmente terminavam a viagem por terra.
- Alteza - inclinou-se o capitão-mor de Santos - é um privilégio tê-lo em nossa região.
- Alteza, tudo foi preparado para que seu traslado a Santos seja o mais agradável possível - completou Aranha, também se inclinando num gesto usual de obediência e reverência aos soberanos.
- Eu é que estou honrado e feliz por ter a oportunidade de ver de perto esta terra de grandes histórias, um dos núcleos do nascimento de nosso Reino em terras americanas e berço de um fiel amigo e sua família, os Andrada e Silva.
- Sim, meu senhor, a família Andrada é por nós muito querida - disse João Batista.
D. Pedro fora reverenciado por todos os homens que ali estavam à sua espera. Eram membros do mais alto relevo no meio santista e vicentino. O Regente sentiu que estava entre pessoas que o apoiavam, que esperavam dele as decisões certas para o Brasil. Ordenou, então, aos líderes da guarda de honra que providenciassem o alojamento para os animais no Rancho de Tropeiros que ficava nas proximidades do Posto Fiscal. Algumas lanchas aguardavam a comitiva para levá-los até a vila de Santos. A viagem iria durar pouco mais de uma hora.
Durante o trajeto navegável, pelo largo do Canéu, o Regente procurou saber sobre as fortificações das vilas e da região. Também fora informado sobre os altos investimentos da Província para a construção do aterro entre Cubatão e a Ilha de São Vicente, que estava sendo executado por escravos. Esta estrada daria um novo impulso econômico à vila santista e também à Província, que teria um meio mais eficaz para fazer escoar seus produtos até o Porto de Santos.
Eram quase quatro horas da tarde quando os primeiros edifícios da vila foram observados pelos ocupantes das lanchas. Também se notava a presença de muitos navios, dada a quantidade de mastros que se viam ao longe. O desembarque aconteceu no Porto do Consulado, no Largo da Alfândega, em um cais de madeira inteiramente novo. Fora produzido especialmente para aquela ocasião única. D. Pedro foi recepcionado pelas grandes figuras da vila santista, membros da Câmara Municipal, do clero, das milícias locais e por cidadãos comuns. Em ritmo de festa, discursos inflamados se fizeram ouvir pelas ruas. Um parque de artilharias deu salvas em honra ao soberano, que, com sua comitiva local, caminhou pela Travessa da Alfândega (hoje Rua Frei Gaspar), Rua Direita (XV de Novembro) e Rua Meridional (Praça da República) até chegar de frente ao Conselho da Câmara e depois defronte à Matriz, onde se realizou um ato de ação de graças com a execução de um solene Te Deum (hino litúrgico católico).
- Uma vila digna da alegria de nosso Brasil. Estou muito feliz em estar aqui. Esse clima me acalma. É um bálsamo diante de tantas intempéries.
- Obrigado, Alteza. A vila de Santos está do vosso lado diante dos problemas que estais enfrentando - disse o capitão-mor João Batista.
- É bom saber disso. Estamos na iminência de tempos turbulentos, e quanto mais aliados melhor.
- Aqui, Vossa Alteza terá aliados.
As ruas por onde a comitiva passou se encheram de flores e pétalas de rosas, atiradas por moças e senhoras da sociedade santista das sacadas dos sobrados da vila. Colchas de seda e brocado eram penduradas nas janelas, enfeitando as fachadas. As tropas da guarnição santista estavam trajadas com uniformes de gala. A Banda Musical do Batalhão de Caçadores tocava em acordes de entusiasmo. O clima de festa era geral.
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