CONDE LESDAIN CHEGA A SÃO PAULO

Domingo, 12 de abril de 1908.

Era final de tarde em São Paulo. Um dia verdadeiramente agradável, com muito sol e temperatura amena. A cidade já tinha cumprido seu roteiro dominical: missa, almoço em família, visita a amigos, parentes e passatempos diversos. Os enamorados aproveitavam o domingo para circular pelo centro da cidade em simpáticas carruagens. Os mais românticos levavam seus pares para visitar as belezas do Jardim Público da Luz.

As famílias geralmente optavam pelos convescotes, realizados nas chácaras que circundavam os principais bairros paulistanos. A juventude viril não dispensava o bom tempo e, geralmente, ia testar forças e habilidades nos clubes e ginásios da cidade. Havia também aqueles que preferiam arriscar o suado dinheirinho no turfe, apostando nos azarões das provas realizadas todos os domingos no Hypódromo Municipal. E, com o dia quente, o caudaloso Tietê acabava sendo um dos principais destinos de muitos paulistanos, para atividades de natação, remo e pesca.

Outro passeio bastante comum era ir ao colossal Museu Paulista, no bairro do Ypiranga, cuja parte frontal estava em obras. Estava ganhando um imenso e belo jardim, a La Palácio de Versailles. Os operários das fábricas e trabalhadores do comércio reservaram o dia para o descanso. Acumulavam energia para encarar a semana que sempre prometia ser dura e típica de uma conturbada cidade que começava a virar metrópole naquele início de século.

Quando os últimos raios solares repousavam sobre a capital paulista, os habitantes do pequeno bairro da Penha de França, no extremo leste de São Paulo, presenciaram algo inusitado. Primeiro foi o susto provocado por um barulho rouco, forte, como de um animal selvagem ferido. Muitas crianças que ainda brincavam na rua fugiram para suas casas, assustadas com o barulho indecifrável. O que se aproximava? Era esse o grande questionamento da maioria.

Alguns poucos corajosos resolveram averiguar o que provocava o estranho som que repentinamente quebrou o silêncio do bairro. Não foi preciso ir até a causa, já que, como um rinoceronte ferido, uma estranha máquina avançava na direção do centro do bairro, como que engolindo a rua de terra batida que conduzia à antiga estrada para o Rio de Janeiro. Quando estava mais próxima dos curiosos habitantes da Penha, foi possível notar que se tratava de uma daquelas engenhocas modernas que começavam a povoar São Paulo: o automóvel.

Não era uma máquina totalmente estranha para aquelas pessoas, até mesmo porque a Penha já era visitada por proprietários de carro paulistanos. O bairro era considerado uma espécie de fronteira final ao leste, um marco para os jovens aventureiros sobre quatro rodas de borracha. O que intrigou os habitantes locais fora o lado de onde surgira o carro. Afinal, os paulistanos motorizados chegavam até o bairro pela Avenida da Intendência, único acesso possível da Penha ao resto da cidade.

A pergunta era óbvia. De onde viera aquele automóvel? Como poderia chegar até ali não fosse por São Paulo, através da Avenida da Intendência? Outro detalhe que causou estranheza aos olhos dos simplórios habitantes da Penha era a forma como o homem que conduzia aquele carro se vestia. O sujeito parecia estar fantasiado de explorador de selvas. Usava capacete de couro e óculos exageradamente grandes, cuja função era proteger os olhos das nuvens de poeira e da fumaça produzida pelo veículo. Também vestia um grosso e longo casaco de couro, além de botas negras por cima da calça. Era uma autêntica “criatura de outro planeta” perdida entre bucólicos habitantes terráqueos.

O espetáculo proporcionado pelo visitante inesperado encantou ao mesmo tempo em que surpreendeu homens, mulheres e, principalmente, as crianças do bairro. Meninos e meninas viram aquele homem como um verdadeiro cavaleiro medieval, no presente, sobre um cavalo de metal.

O animal futurista, contudo, era um Brasier, automóvel francês de 16 HP (CV) e 4 cilindros. E o tal cavaleiro era ninguém menos do que uma verdadeira lenda do automobilismo mundial: Conde Lesdain. Aristocrata francês ficara conhecido mundialmente por seus feitos automobilísticos na Europa e no norte da África (Marrocos e Argélia), a bordo do mesmo Brasier que conduzia corajosamente pelas ruas da Penha. Tinha chegado ao Brasil no início de 1908, causando furor na capital federal.

Lesdain desembarcara no Rio de Janeiro em fevereiro. Sua vinda ao Brasil era puramente aventuresca. Queria percorrer as combalidas estradas do país, e pretendia, para isso, iniciar sua aventura no trecho entre as duas maiores cidades brasileiras. Antes de se lançar à aventura, porém, procurou conhecer detalhes sobre o caminho Rio-São Paulo. Descobriu que ele estava abandonado há anos, por conta da implantação da linha férrea Central do Brasil. Desde o final do Período Imperial, o trem conquistava os principais espaços no transporte de cargas e passageiros, sobretudo entre os grandes centros e cidades estratégicas. Para as antigas estradas de carruagens e tropeiros isso foi fatal. Abandonadas ao tempo ficaram praticamente intransitáveis em diversos lugares.

Lesdain indignou-se por saber que as autoridades brasileiras não tinham olhos para a questão rodoviária, para a recuperação das estradas de rodagem. Percebeu, então, que sua façanha poderia lançar luz à questão. E ainda seria uma ótima publicidade. Lesdain decidiu que seria o portador da bandeira das estradas de rodagem. Pretendia mostrar ao Brasil a sua viabilidade para o futuro dos transportes. Uma propaganda ideal para um aventureiro do seu calibre!

O conde francês também sabia o que isso poderia significar em seu país de origem. A França era a maior produtora de automobiles do mundo. Com estradas mais adequadas, os brasileiros poderiam incrementar o interesse por viagens rodoviárias. Assim, importariam mais veículos franceses. Os portos de Santos e Rio de Janeiro já vinham recebendo carros normandos em profusão. Só em São Paulo já circulavam mais de 80 carros fabricados na Europa, sobretudo na França. Eram veículos das mais variadas marcas: Panhard, Renault, Berliet, Peugeot, Dion Bouton, Daimler, Donac, Brasier, Columbia, Sizaire-Naudin, Norris Paris, Drumond, Bayard Clement, Motobloc, Dar-raque, Alcion, Rochet Schneider, Le Passe Partout Paris, Bollée, Prima, Hartu Pam e Lansinychgan.

Lesdain já se imaginava nas manchetes do Le Figaro, o mais importante jornal da França, onde letras garrafais chamariam a atenção por sua aventura na América. Antes mesmo de traçar uma estratégia de viagem, o aventureiro foi surpreendido por notícias nos jornais cariocas que anunciavam entusiasticamente o alargamento da bitola da estrada Central do Brasil. Esta notícia caiu como uma luva para Lesdain. Ele percebeu que poderia fazer uso das estradas auxiliares usadas na obra para trafegar com o Brasier até São Paulo, principalmente próximo aos trechos da estrada original que estivessem muito ruins.

Depois dos minuciosos preparativos para sua viagem, finalmente, em 10 de março de 1908, Lesdain largou da capital guanabarina. Durante 33 dias, quase 700 quilômetros de jornada árdua, o resistente Brasier venceu todas as barreiras postas à sua frente. Ultrapassou centenas de trechos esburacados (alguns, verdadeiras crateras), atoleiros terríveis e pontes que tiveram de ser adaptadas. Por diversas vezes utilizou a estratégia de seguir ao lado da estrada de ferro, quando não por cima delas, literalmente. O nobre conde dormiu ao relento em várias ocasiões, encarando as frias noites do Vale do Paraíba, ao lado de seu valoroso companheiro de metal, borracha e couro.

Agora, vencidas todas as agruras da Rio-São Paulo, lá estava ele, o cavaleiro vitorioso sobre seu alazão metalizado, dominando as últimas curvas antes de apontar na reta final rumo à capital paulista. Esta rua, a da Intendência, pelo menos era mais adequada ao tráfego. Com o povo saudando-o no trajeto, gritando vivas ao herói desconhecido, Lesdain seguiu para a linha imaginária da vitória. O francês cumpria sua missão.

 

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