OS SIMPÁTICOS BONDINHOS DE SANTOS
Por um bom tempo fiquei extasiado por ter conhecido o bonde elétrico da capital e torcia para que a novidade chegasse logo a Santos. Pena que demorou. Apesar de tantas dificuldades, eu era apaixonado pelos nossos simpáticos bondinhos, cujas linhas, até 1909, eram todas dependentes da tração animal. Nossos carris percorriam as ruas mais movimentadas da cidade: General Câmara, 15 de Novembro, Santo Antônio, Direita, entre outras. As linhas mais longas serviam o José Menino, através da Vila Mathias e Avenida Ana Costa e a Ponta da Praia, trafegando pelo Boqueirão da Barra. Na Avenida Conselheiro Nébias existiam estações de bondes intermediárias, onde eram efetuadas as mudas das parelhas de burros. Não era nada mole puxar aqueles carros pesados por quilômetros a fio!
A estação da Barra, a mais antiga e conhecida, ficava nas proximidades de impenetráveis bambuais. O povo reclamava bastante quando tinha de parar por lá, principalmente por causa dos mosquitos que infestavam o local. Por outro lado, os passageiros raramente reclamavam da velocidade imprimida pelos morosos burrinhos. As viagens geralmente eram cercadas de bom humor e despreocupação.
A única coisa que aporrinhava os passageiros mais rabugentos era quando havia os descarrilamentos, coisa frequente, aliás. Nestas horas, o povo era obrigado a descer ligeiramente do carril, muitas vezes sob aguaceiros e, soltando graçolas, repunham o trambolho sobre os trilhos.
Os bondinhos recolhiam-se cedo, às 22 horas, mais ou menos. À noite, o trajeto deles era coisa de dar medo, já que não eram iluminados no interior. Os lampiões que eram colocados à frente e à retaguarda do veículo e serviam apenas para assinalar-lhe a presença dentro das tintas da noite.
Por causa da tal eletricidade que tinha acabado de testemunhar em São Paulo, acendendo postes nas ruas, eu começava a acreditar nas mudanças do futuro. Nossa iluminação daquela época? Puah! A coisa ainda corria à conta do gás de carvão, queimado por bicos grosseiros, em jatos de luz mortiça. As ruas, estreitas, vestiam-se de sombras. Porém, a partir dos primeiros anos da década de 1900, começaram a instalar, em alguns lugares, um sistema de lampiões de camisas incandescentes, de melhor queima de gás e produção de luz mais viva. Você precisava ver como as pessoas se alvoroçavam e saíam em massa às ruas, apinhando os bondinhos, só para ver a nova maravilha.
O primeiro lugar a receber essa nova iluminação foi a Rua do General Câmara. Os santistas ficaram entusiasmados, não faltando quem afirmasse, muito a sério, que com maior número de lampiões, teríamos luz capaz de empalidecer a do dia.
Voltando aos bondinhos. Só dois homens respondiam pelo andamento de um carril: o cobrador e o cocheiro, ou condutor. O segundo não usava farda, somente um boné e trazia uma das mãos ocupadas pelas rédeas, enquanto que a outra descansava sobre a manivela do breque. À boca, o clássico apito, trilado gaiatamente às esquinas. Acentue-se que passeios à praia tinham o gosto de fuga romântica. Banhos de mar? Somente sob prescrição médica, às 3 ou 4 horas da manhã, onde se via as mulheres enterradas até o pescoço em roupas espessas. Eu, particularmente, achava um exagero. As praias viviam sempre muito desertas, assim como não havia muitas casas na orla. Ninguém se empolgava por erguer uma residência de frente para aquele mar fantástico. Os terrenos na praia eram, assim, os mais baratos. Quanta diferença para os dias de hoje! Eu até falei para o meu pai comprar um terreno perto das chácaras do José Menino, mas ele sempre resmungava que não pretendia viver longe de onde havia civilização. Terreno na praia? “É negócio só para inglês”, vivia dizendo seu Francesco.
O que eu mais gostava, quando tomava um bondinho, era ver a agilidade e esperteza dos rapazotes vendedores de jornais. Via de regra, eles abordavam os passageiros dos carris gritando as manchetes mais escandalosas do dia. Também adorava ver os bondinhos disputando, lado a lado, o espaço das vias públicas com as decadentes carruagens. Não era raro testemunhar, vez em quando, um entrevero entre os burrinhos dos carris e os pangarés que puxavam verdadeiras carroças metidas à besta.
Aliás, nos primeiros anos da década de 1900 as carruagens dariam seus primeiros sinais de fadiga e começavam lentamente a desaparecer. Algumas, contudo, ainda insistissem em conquistar a preferência do público. Porém, e cada vez mais, as carruagens só eram chamadas para fazer o transporte de casamentos e funerais. Noivas e defuntos! Mas até nisso os bondes começavam a ameaçar o rústico meio de locomoção. Eu sabia que, um dia, os carris iriam ser amplamente utilizados para as duas coisas como, aliás, fora o meu casamento com Elvira, quando fiz questão de utilizar um bondinho enfeitado para meu trajeto festivo, e não uma carruagem velha. Depois daquilo, muita gente que nos imitou, o que me deixou bastante feliz, por ter sido pioneiro na idéia. Para os cortejos fúnebres, a coisa começou mais à frente.
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