O ENCONTRO ENIGMÁTICO
Santos, terça-feira, 21 de abril de 2009.
O misterioso personagem estava numa enorme lancha branca, que navegava ao sabor das ondas na direção de uma pequena ilha, onde a silhueta de um majestoso monumento, envolto por camadas espessas de névoa, começava a tomar forma. À medida que a embarcação se aproximava do pequeno porto insular, o homem demonstrava mais entusiasmo e ansiedade.
É ela! Estou na terra do mestre!
A névoa se dissipava lentamente, revelando o céu azul e um sol esplendoroso. Hipnotizado pela bela paisagem, o homem não notou a aproximação de um indivíduo às suas costas, que logo lhe tocou o ombro.
- Meu amigo! Bem-vindo ao meu território de proteção!
- John Cover, que felicidade lhe rever.
Os dois se abraçaram, em sinal de forte amizade.
- Puxa, como você está mudado! Está bem jovem.
- É verdade, eu gosto muito desta aparência. Recebeu meu recado?
- Claro, porque achas que estás aqui?
O homem sorriu. Vez em quando insistia em testar os poderes que lhe foram conferidos no passado.
- Mestre, preciso de sua ajuda, mais uma vez.
- Eu sei, eu sei. Estamos monitorando os acontecimentos em Santos. A situação é complicada, mas podemos revertê-la.
- Já existe um novo herdeiro na família Marati. Contudo, ele ainda não sabe a verdadeira natureza de sua missão. E é isso, justamente, que está preocupando a todos. Precisamos alertá-lo, de alguma forma segura. Você sabe do que estou falando. A data se aproxima e tememos não conseguir impedir o ataque...
John Cover pareceu preocupado.
- Eu sei, mas você já se sacrificou demais, meu caro. Sabíamos que era um risco, que não era fácil, aliás, nunca foi. Eles, sempre que podem, tentam nos minar por brechas inesperadas. Nosso maior infortúnio foi eles terem descoberto, apesar de todos os nossos esforços, que a próxima data de ajuste da energia será em Santos. Temos de tomar muito cuidado! É um catalisador tão bem resgatado. Eu não me conformaria se eles lograssem êxito, ainda mais na terra de pessoas tão zelosas como os Marati.
- John, sei que não podemos quebrar as regras de sigilo, mas, se for necessário, estarei disposto a sacrificar-me mais uma vez, por nossa luta. O problema são as consequências, das quais desconheço o alcance.
- Você tem razão em temer, meu amigo. Não se quebra a regra de sigilo impunemente, mesmo que nossos movimentos visem o bem-estar da energia. É que no passado houve quem quebrasse as regras somente para causar destruição. Por isso é que foi necessário criar essa regra, uma redoma inquebrável. Se você a infringir, seu elo de proteção ficaria ameaçado, colocando-o à mercê nos inimigos, podendo até cair nas mãos deles e sofrer terríveis torturas. Não, não podemos arriscar tanto. Vamos acreditar na capacidade de entendimento de Artur. As chances de encontrar outro substituto entre os homens são praticamente nulas.
- Mas o que podemos fazer para acelerar o aprendizado do jovem Marati? Artur abandonou a missão há poucos dias, ainda no começo do livro. Ele precisa ler seu conteúdo completo para entender o papel que terá de ocupar nesta batalha, além do que precisará descobrir os portais. Temos só uma semana, sete dias para a data de ajuste. É um tempo ínfimo e o nosso desespero está sendo um prato cheio para os inimigos. Se falharmos desta vez, o planeta estará totalmente aberto para os ataques. Mestre, desta vez eles serão cruéis conosco. Você sabe, tanto quanto eu, que não há defesa eficaz num ambiente em desequilíbrio.
- Eu não sei? Que o 11 de setembro fale por si. Não fosse uma ajuda de última hora, estaríamos perdidos. Foi um trabalhão manter a estátua a salvo, para que pudesse continuar catalisando a energia do equilíbrio por aqui. Mas as torres, que eram catalisadores auxiliares, acabaram tombando. Meu caro, até hoje estou colhendo os problemas desta tragédia.
- Sem falar que os custos foram altos, lembra-se?
- Sim, é um dia para se esquecer.
John olhou, melancólico, para o vazio que as torres gêmeas, os prédios do World Trade Center, deixaram na Ilha de Manhattam. Depois, voltou-se para o companheiro. Seus olhos denotavam confiança.
- Mas não iremos esmorecer, meu amigo. Já enfrentamos diversas outras sabotagens e ataques. Não será a primeira, nem a última vez que eles tentam nos desestabilizar.
- Eu sei disso John, mas essa situação do ajuste em Santos é muito mais delicada. Eles estão minando os guardiões desde a morte do Arcelino, em 1971. Assim, conseguiram anular os bondes e quase destruíram sua memória pra sempre. Lembra-se do massacre de 1973? Não fosse nossa luta, estaríamos hoje, próximo da data de ajuste, sem um catalisador. Você consegue imaginar o que seria isso? O fim!
O norte-americano concordou.
- É verdade! O problema é que, como eles acabaram descobrindo que Santos ocupa o ciclo de ajuste em 2009, e que os Marati são os guardiões, estão procurando minar a família desde então. É claro que eles iriam tentar impedir que o herdeiro tomasse posse. Devem estar desesperados com isso, mas sabem que não podem fazer nada direto contra um guardião ou seus herdeiros.
- Pois é. Acho que foi por isso que não fizeram nada com Gigi. Ela tem a força de uma guardiã e é protegida pela regra. Mas, se continuar omissa, não sei não.
- Gigi ainda não se deu conta disso. Está com receios, que a acompanham desde quando era uma pré-adolescente. Mas, vamos ter fé. Ainda acredito que ela possa acordar a tempo.
O misterioso homem caminhou pelo convés da barca, em círculo.
- John, o que faremos para alertar Artur, sobre nossa urgência? Parece que o azar está caminhando ao nosso lado! Conseguimos, com o sacrifício, trazê-los até Santos e fazer com que eles entendessem a importância do baú. Agora ele arruma esta namorada e desvirtua todo o caminho.
Mesmo preocupado, John exibiu um sorriso.
- Meu caro, temos de entender que ele é jovem, quer sair, namorar, passear. Ainda desconhece a real importância do que está assumindo. Apesar de ter ficado surpreso por constatar que o livro é mágico, Artur ainda encara sua tarefa como uma fantasia. Para ele, ainda trata-se de um baú velho, com recortes de jornais e histórias do passado. Entender a história é uma tarefa que pode fazer outra hora qualquer.
- Então, qual solução poderemos ter?
O mestre pareceu raciocinar.
- Podemos tentar entrar em contato da mesma forma como você fez da primeira vez, quando Artur chegou a Santos.
- Com o George Mears?
John ficou paralisado, pensando no que fazer e respirou fundo, sentindo-se com as mãos amarradas.
- O problema continua sendo a regra de sigilo. Eu sei que isso é uma situação rara. Normalmente os guardiões aprendizes têm o antecessor ao seu lado, durante um bom tempo. Foi o caso do Arcelino com Luigi. Ali, sim, houve tempo para o aprendizado. O problema é que Artur tem nas mãos uma tarefa hercúlea. Mas creio que poderá se sair bem. Principalmente porque sabemos quem ele realmente é.
- Então pediremos novamente um favor ao George Mear, o guardião de Londres?
- Não. Apesar de ter sido uma jogada inteligente, não acho bom arriscarmos a essência do Mears. Ele se expôs demais com aquela tarefa. Eu sei que ambientar em Londres aquele contato, fazendo com que Artur ficasse menos tenso, foi uma ótima idéia, mas não podemos repetir a dose.
- Então, qual é a saída?
John Cover ficou introspectivo e sorriu maliciosamente, como se tivesse se lembrado de alguém especial para confiar a missão.
- Já sei pra quem vamos pedir este favor.
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