O BAÚ DOS MARATI

Depois de regressarem para o casarão da família, localizado na Vila Belmiro, nas proximidades do Estádio Urbano Caldeira, Gigi, Silvia e Rita iniciaram uma pequena reunião, a fim de discutir o futuro. Na cozinha, as três irmãs conversavam sobre os acontecimentos recentes e o que iriam fazer dali por diante. Silvia revelou todos os detalhes da conversa que teve com a equipe médica que atendeu o pai e assuntos de ordem financeira. Contudo, a grande questão a resolver era sobre a permanência ou não de Gigi ao lado da família por um tempo. A caçula alegou estar cansada da vida em Londres e desejava voltar a Santos, nem que fosse por um ano.

- Bom Gilda, o que você vai dizer para o Alberto? Não é preciso ser adivinha para saber que ele não vai gostar nem um pouco.
- Silvia, não precisa falar mais nada. Não voltarei para a Inglaterra tão cedo. Quero ficar aqui. Falhei muito com papai e também com vocês por conta desses dez anos de ausência. Eu sei que ele queria que eu voltasse para continuar algo que recusei no passado. Se o Antonio Alberto quiser, ele que peça transferência para São Paulo ou uma licença longa.

Rita franziu o rosto, duvidando da facilidade daquela decisão. O marido da irmã caçula não era homem de aceitar imposições de mulher.

- Gigi, o Antonio Alberto tem uma carreira internacional. Você acha que ele vai abrir mão disso?
Silvia emendou
- É Gi, por aqui ele não vai conseguir um cargo como o que ele tem por lá.
Gilda parecia estar decidida. Fechou o semblante e desabafou.
- Que adianta ele ter aquele emprego se nós não temos vida? Ele é praticamente um escravo do cargo. Ninguém pode substituí-lo, ninguém tem competência para fazer o que ele faz, etc. e tal. Eu estou cansada! Ele sai cedo e chega tarde quase todos os dias. Além do que viaja muito. Nos finais de semana, vira e mexe, tem compromisso. Nunca foi ver uma única apresentação do Artur na escola, nem as peças de final de ano. Vocês acham que esse emprego é bom? Só porque ganha bem?

Silvia tentou ponderar.

- Mas Gilda, dinheiro é importante para o futuro do seu filho. Eu acho que ele se sacrifica por isso.
- Importante é o Artur ter um pai presente. Importante é dar amor, carinho. Claro que dinheiro é bom! Quem não quer estabilidade, segurança? Não sou louca de dizer o contrário. Mas não podemos sacrificar a vida, uma relação pai e filho, por causa disso.

O discurso pareceu surtir efeito. Gigi estava sendo bastante eloquente em suas ponderações. Rita concordou.

- Sabe de uma coisa? Acho que a Gilda está certíssima!

Silvia, sempre serena, preferiu não precipitar um palpite. Ficou quieta, com ar de preocupação. Gilda ficou intrigada ao ver a irmã mais velha ruminando pensamentos.

- Que foi Si? Acha que estou errada?
- Não Gi, acho que você deve ser feliz, só isso. Mas, antes, converse com seu marido sobre sua angústia. Se ele realmente te amar, vai entender.

Enquanto a conversa continuava na cozinha, Artur, dominado pela curiosidade por causa do segredo, resolveu subir e entrar furtivamente no quarto do avô. Ouvira a mãe falar com as irmãs sobre um baú misterioso. Ele mesmo lembrava-se de algo parecido, no fundo de sua memória. A imagem da réplica de um bondinho vinha à mente em flashes esporádicos.

O que será que tem nesse baú? Será que é o tal segredo que minha mãe está escondendo?

Dentro do quarto, com as luzes apagadas, Artur aproveitou-se da claridade que entrava pelas brechas da janela para enxergar os móveis do ambiente. Viu uma cama, uma escrivaninha e um armário, além de duas poltronas e caixas cobertas por panos. O jovem Marati tomou o maior cuidado para não provocar barulho e atrair sua mãe e as tias. No entanto, ao abrir uma das portas do guarda-roupa, deixou cair uma estranha mochila no chão. Na queda, ela se abriu, espalhando no piso todo o seu conteúdo: um arco de madeira e uma pequena cestinha com diversas flechas metálicas. Não foi possível evitar o barulho.

Droga! Que merda!

Indignado por conta da sua trapalhada, Artur caminhou até a porta do quarto a tempo de escutar o som de passos que se aproximavam. O jovem Marati ainda tentou esconder-se atrás da cortina, mas fora pego em flagrante quando Gigi abriu a porta e acendeu a luz do cômodo.

- Artur! Que coisa feia, seu moleque!

Artur ficou envergonhado. Fora apanhado com a “boca na botija”, como costumava dizer sua mãe, toda vez que o flagrava fazendo algo que não devia.

- Que vergonha, hein. O senhor não vai me dizer que pensou que aqui fosse o banheiro, né?
Artur não podia inventar um desculpa mais idiota. Então, resolveu confessar.
- Tá certo, mãe. Eu vim ver de perto o tal baú que a senhora e as tias citavam na conversa lá na cozinha. Fiquei curioso e queria saber se era ele quem guardava o segredo dos Marati.
Gigi sorriu e, em seguida, caiu na risada. Aquele comportamento irritou o jovem.
- Que é? Tá tirando uma da minha cara?
- Não, Artur. É que eu fiz contigo o mesmo que meu pai cansou de fazer com suas tias. Precisava ver a sua cara. Olha, mesmo que você encontrasse o baú, não iria conseguir ver o que há dentro dele, pois ele fica trancado e a chave já está em minhas mãos.

Os olhos de Artur brilharam.

- Jura? Então, podemos ver o que tem dentro dele agora?
Gigi ficou menos risonha.
- Não, hoje não. Eu preciso, antes, pensar o que lhe dizer.
- Como assim?
- Você não vai entender agora, filho. Vai ter que esperar.

Resignado, e até sem moral pelo ridículo flagrante, Artur teve de aceitar os termos.


 

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